domingo, 27 de fevereiro de 2011

Desafios e vitórias



Boas notícias devem ser compartilhadas! Um exemplo de superação, rumo à inclusão através da educação e direto do Estado de Alagoas...Repasso texto:



Nós que fazemos parte do Programa Conexões de Saberes da Universidade Federal de Alagoas – UFAL temos o prazer de divulgar números do Processo Seletivo Seriado 2011. Como era esperado, o Projeto Pré-Vestibular Comunitário, aumentou o número de aprovados.
Presente em 06 municípios alagoanos e mais 06 bairros da capital, a possibilidade de um êxito maior que no ano anterior era eminente. Nessa configuração, foram 960 alunos que estudaram no curso, desses 515 prestaram vestibular.
Os 185 aprovados foram recepcionados com direito a solenidade, onde contou com as ilustres presenças da Magnífica Reitora Ana Dayse Rezende Dórea e do Vice-Reitor Eurico de Barros Lôbo Filho, no último dia 21 de fevereiro de 2011.
Em clima de muita alegria, dois ex-alunos do cursinho discursaram sobre suas caminhadas até o egresso ao Ensino Superior. Ambas com requinte de superação. A primeira é Dijania Correia da Silva Melo. É difícil acreditar que uma ex-catadora de lixo de 40 anos, mãe de 09 filhos, possa ter o sonho de passar no vestibular. Ela conseguiu. Ela foi 3º lugar do curso de Ciências da Computação, um dos cursos com grande número de concorrentes. Numa das passagens de seu relato, disse que passou a primeira vez em frente a universidade e disse para si: “um dia ainda irei estudar aqui!”.
Sua história comoveu a todos, inclusive com a presença da metade de sua prole no local onde estava sendo realizado o evento: “Infelizmente não deu para trazer todos. O restante ficou em casa com o pai...”
Outro relato que levou as lágrimas muitos dos presentes foi a de Marlone Barbosa Lins de Mendonça. Ele conquistou uma vaga no curso de Serviço Social, ocupando o 2º lugar pela mesma instituição. Marlone possui dificuldade de locomoção e de dicção, mesmo assim fez questão de relatar sua experiência de conquista.
Segundo a reitora Ana Dayse, o acesso a universidade é apenas o primeiro passo, a conquista agora é a permanência com qualidade para os aprovados e isso pode ser traduzido com a bolsa de assistência ao estudante. 
Parabéns, queridos!
"Um dia quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste" (Sigmund Freud)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Reinventar a escola dialogando com a comunidade e com a cidade

 Jaqueline Moll é doutora em Educação, gosto muito do seu trabalho e o texto, apesar de longo, vale a pena:

Novos Itinerários Educativos

Sem negar a tradição fundadora de qualquer instituição social, é preciso que nos questionemos profundamente acerca do sentido da escola para as novas gerações de nossa sociedade, assim como nos questionamos acerca de outros cânones instituidores das formas de ser e de estar no nosso tempo, como a família e as instituições democráticas.


Há muito estamos imersos, atores das cenas pedagógicas que se desenvolvem no dia-a-dia de nossas escolas, em discussões acerca dos problemas “congênitos” de que padece a instituição escolar. Problemas que ganham novos matizes diante das novas exigências e dos novos desafios do presente. Problemas relacionados à distância (aos desentendidos ou mal-entendidos) que existe entre a escola e a família, esta, via de regra, acusada de ausentar-se ou de ignorar as demandas da escola e as necessidades dos alunos. Problemas relacionados à indisciplina, sobretudo por parte dos adolescentes, que, supostamente, não se interessam pelo que a escola ensina. Problemas de não-aprendizagens, ainda denominados de “fracasso escolar”, em relação aos quais os alunos continuam sendo avaliados e categorizados pelo que não têm e não demonstram saber e raramente pelo que já construíram. Problemas em relação ao uso da coerção, da repressão que impede a livre expressão de idéias, comprometendo o futuro da própria democracia e, portanto, a possibilidade de avanço nas formas de convivência social.

As leituras dos problemas da escola ganham por vezes contornos bastante persecutórios: acusam-se professores, pais, alunos, governos como agentes que podem ser individualmente culpabilizados. Há quem pense – e proponha – que novos métodos de ensino ou novos processos avaliativos ou novas disciplinas no currículo escolar ou novos materiais pedagógicos ou a introdução de novas tecnologias de comunicação e informação podem resolver ou, pelo menos, minimizar o mal-estar vivido pela escola.

Considerando que muitas podem ser as leituras e variadas as alternativas, sem dúvida importantes para a renovação do trabalho pedagógico, propomos outra possível leitura que, ao mesmo tempo, caminhe na contramão das culpabilizações e permita-nos uma análise e, portanto, saídas menos pontuais.

Sem desconsiderar a importância de tais processos, é preciso focalizar movimentos mais amplos que buscam transformar as formas de ser e de atuar da instituição escolar, convertendo a escola em “comunidades de aprendizagem”, ou movimentos que tentam conectar a escola às redes sociais e aos itinerários educativos que estão no seu entorno no espaço urbano da construção da “cidade educadora”.

Tais processos desafiam-nos a mudanças que, embora também metodológicas, são mudanças paradigmáticas que implicam produzir novos esquemas mentais para ler o mundo e criar o que Paulo Freire denominou “inéditos viáveis”. Desse modo, não se colocam como uma nova panacéia, nem como um novo modelo, mas como mudanças possíveis, porém a médio e longo prazos, as quais só podem ser construídas a partir de novos pactos sociais e educativos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ser ou não ser...


O que vou escrever hoje pode causar discordâncias, concordâncias ou mesmo indiferença. Mas é um assunto que a cada dia se confirma mais de acordo com o que testemunho na minha experiência de vida e de trabalho.
A profissão do professor vem sendo desconstruída sistematicamente em todos os aspectos. Além da própria prática cotidiana, ainda temos a mídia a nos lembrar desse desafio através de situações de violência absurdas e repugnantes. Os motivos conhecidos por toda a sociedade como baixos salários, jornada de trabalho dupla ou tripla,  condições precárias das salas de aula, falta de material adequado e outros, somam-se à falta de reconhecimento e de respeito até mesmo dentro das escolas, por pessoas que deveriam trabalhar em parceria.
No entanto, há algo de belo e mágico na profissão, algo que nem mesmo olhos cansados e mentes desiludidas conseguem esconder. Um brilho que o fogo das circunstâncias tenta apagar, mas que insiste em permanecer tal facho que alumia a noitinha.
Nisso consiste o sentido e a intenção deste texto: defendo a ideia de que só merece ser chamado professor aquele que vive o cotidiano das salas de aula. Aquele que se vira em polvo para dar conta de tantas coisas. Que partilha com o aluno, além do dia a dia, as alegrias, os problemas, as dores, os sorrisos.  Que por necessidade aprende a ser artesão para adaptar materiais, que ousa fazer as vezes de enfermeiro e psicólogo. Que conhece um pouco da realidade de cada ser com quem convive, e por isso consegue compreender um rosto descontente, um abraço silencioso, uma lágrima contida, um sorriso satisfeito.
Quem trabalha na área de educação mas não (re)conhece a realidade da sala de aula pode  ser técnico em educação, mas está muito longe de ser professor. Ainda que tenha passado anos desempenhando a função de professor, quando deixa de fazê-lo se distancia rapidamente de tudo o que se refere a ela. Claro que são profissionais com habilidades louváveis, pois lidar com a burocracia de uma escola não é nada fácil. Documentos, consertos, reparos, notas fiscais e os imbróglios diários, sinceramente acho que isso não é para todo mundo. Mas daí a se considerar professor há uma diferença enorme. Em alguns desses profissionais percebo um respeito a quem desempenha a função, outorgando ao professor um pouco do que ele merece. Outros se esquecem muito rápido de tudo o que viveram na sua experiência anterior e esses por vezes me causam espanto. Vivem afirmando categoricamente que amam a sala de aula, no entanto poucos optam por retornar a ela (tive o prazer de conhecer colegas que, após um período em outra função, reafirmaram o seu amor ao magistério e optaram pela volta à sala de aula). Contam mil bravatas de quando estavam em sala de aula, coisas mirabolantes que faziam e que os pobres colegas atualmente não fazem. Dão sugestões bizarras, próprias de quem nada sabe da realidade. E ordens descabidas, autoritárias, apenas um exercício do poder que julgam ter e que tanto os deslumbra. Não notam que os que realmente têm poder usam de simplicidade e humildade para exercê-lo.
Não estou, absolutamente, criticando os que enveredaram por outros caminhos profissionais, ao contrário, admiro os que não têm medo dos desafios.  O que abomino a hipocrisia e o mau uso de um falso poder.
Aos colegas que souberam lidar com essa roda-viva sem jogar fora os seus valores, meu mais sincero reconhecimento e admiração. Aos que sucumbiram à sedução do poder, nem tudo está perdido: o magistério é algo que se renova a cada dia, se reinventa e até se reaprende.